A leitora e a escritora
Enquanto leitora e escritora normalizei me cobrar demais.
A leitora
Até poucos anos atrás era impossível não me ver como uma péssima leitora. Havia acumulado desde a universidade uma longa e interminável lista dos livros que eu não li, que precisava e deveria ler.
Em 2019, Carol Almeida e Ramiro Ribeiro divulgaram que havia um espaço no Tamarineira (bar/restaurante administrado por eles) para doação de livros. Saber daquele espaço me motivou a revisitar a minha estante de livros e a começar a negociar comigo mesma a desapegar dos livros que não havia lido ou que não tinha motivos para manter guardados.
Pode parecer algo tolo e simples, mas para mim foi como comecei a me libertar de uma imensa culpa que os livros que não li me geraram.
Não posso dizer que de lá para cá consegui ler todos os livros que acabaram ocupando espaços do meu quarto (aumentei os espaços para livros e nunca parece que tem espaço suficiente). Mas ao menos uma vez por ano, tenho avaliado o meu acervo de livros e colocado para circular aqueles que consigo desapegar.
A medida que prático apegar e desapegar é inconstante. Procuro me acolher quando não consigo desapegar, e agradecer quando consigo desapegar de algo que não esteja me ajudando a ficar bem.
Conseguir observar o quanto me cobrei e me cobro faz a diferença para que evite voltar a me desmerecer como leitora, e para que consiga celebrar e agradecer pelos livros que consegui ler nos últimos anos, mesmo aqueles que não terminei.
Só eu sei o quanto precisei de acolhimento nos últimos anos, e que fez e faz toda a diferença conseguir me acolher principalmente quando outras pessoas me desacolhem. A leitura também se tornou uma forma de acolhimento, o acervo que construí e sigo construindo de livros - que abordam a saúde mental, estudos e pesquisas sobre comportamento humano, autocuidado e autocompaixão-, já me permitiram acessar trechos inspiradores, compassivos, acolhedores e empáticos nos momentos que eu mais precisei.
A escritora
Não canso de dizer que a minha versão que eu mais sabotei e desmereci foi a escritora. Na terça (02/06/2026), participei de uma aula aberta online que tinha como objetivo estimular as pessoas a se libertarem de suas vergonhas de escrever.
Acredito que a vergonha de escrever está na ponta do iceberg do que ajuda pessoas escritoras a se privarem de escrever. Na teoria, acreditei que sabia superar as minhas vergonhas, até começar a ler os livros da Brené Brown e perceber que não era sobre superar elas e sim sobre evitar silenciá-las, e encontrar quem nos dê empatia e escuta.
A primeira imersão que fiz nos livros da Brené durou oito meses, mais ou menos. Foi o tempo que levei para ler seis livros: A coragem de ser imperfeito, Eu achava que isso só acontecia comigo, A arte da imperfeição, Mais forte que nunca, A coragem de ser você mesmo e A coragem para liderar. Da metade pro final desta imersão da minha leitora, exercitei escrever alguns textos sobre o que estava lendo e vivendo no meu blogspot. Foi escrevendo um destes textos que comecei a perceber que a minha relação com a minha escritora havia mudado.
Não sabia reconhecer o quanto os meus medos, inseguranças, culpas, vergonhas e frustrações aprisionavam a minha escritora. Aquela nova versão de escritora que começava a surgir conseguia escrever e ler o que escreveu sem se aprisionar tanto quanto antes.
Ainda carreguei e carrego medos, inseguranças e frustrações. Cheguei acompanhada por eles para ocupar este espaço no Substack, em setembro de 2023 e fui lidando na medida de pude. Aprendi a acolher as minhas culpas e que não precisava me desmerecer e punir para me responsabilizar pelos meus erros. Passei a me lembrar que errar faz parte dos processos. Não achei que aprender sobre a importância de falar sobre as minhas vergonhas era suficiente, passei a escrever e falar sobre isso em toda oportunidade que encontro, como neste texto.
Estava praticando no ano passado o exercício de ler o que escrevi aqui, exemplo: quando achava que não sabia o que escrever, lia o que havia escrito um ano antes; o
u algumas vezes já seguia mesmo a curiosidade e lia o que escrevi em algum texto anterior publicado aqui. Ler textos que escrevi neste substack me inspiraram e acolheram.
Estava também relendo o que havia escrito no meu caderno diário. Neste caso era mais para me lembrar o que eu havia superado. É bom lembrar deste exercício, saber que mesmo não tendo recorrido mais a ele com frequência, foi bom e pode voltar a ser, reler o que escrevo.
Já me causou muito sofrimento não conseguir escrever tanto quanto eu desejava. Hoje sei que o sofrimento não era apenas por não me permitir escrever e sim porque não sabia nomear o que sentia e tinha dificuldade de me acolher. Este ano, escrevi menos do que desejei, mas em contraponto escrevi muita coisa que me faz sentir que tenho exercitado a escrita na medida que me foi possível. Podia ter escrito mais, mas isso não tem me impedido de agradecer pelo que tenho conseguido escrever. Isso também não tem abalado a minha fé na minha escritora, o que é revolucionário.


